Sábado, Julho 02, 2005

Entrevista aos New Winds

O Ouvido esteve em conversa com o Bruno "Break", voz dos New Winds.
Com o seu "A Spirit Filled Revolution" recentemente editado e uma tour pelo Basil no início deste ano, esta banda de Lisboa é movida pelo hardcore.

Fica aqui a entrevista dada ao Ouvido, agradecendo desde já a disponibilidade e a atenção:


Ouvido: Ao falarmos de New Winds, associamos temas como "Human, Animal and Earth Liberation" e "Political Straight Edge".
Como definem a banda? (Mentalidade, estilo musical)

Bruno “Break” (Voz): Ainda bem que se pensa assim porque é mesmo isso que a banda tenta passar com as suas letras e músicas, com os seus textos, lançamentos, distribuidora, palavras. New Winds é para mim uma banda política, uma banda com uma mensagem, uma cultura, a música de “mãos dadas” com a mensagem, uma mensagem de revolução, política e espiritual, uma “Spirit Filled Revolution”. Musicalmente, penso que New winds é uma típica banda de HC, mas com músicas rápidas, músicas a meio tempo, melódicas, com vocais muito “softs” mas também gritantes de uma forma mais aguda e não aquele gritado mais desesperado, mais rouco, mais “vozeirão”.


Ouvido: O que os move neste meio musical?

Bruno “Break” (Voz): Para mim, unicamente uma coisa: Se ainda tenho esta banda é mesmo pelo facto de poder usá-la para poder atingir pessoas e dizer o que penso sobre este mundo para as pessoas que vão ver os nossos concertos. É como se de uma pérola se tratasse, algo valioso. Daí eu querer de facto usar esta banda como uma forma de eu poder aprender mas também poder exprimir o que vai dentro deste coração. Isto faz-me mover dentro da cena HC. Aprendi tanto aqui, tantas pessoas me fizeram pensar com as suas aproximações e reflexões, levaram-me a tantos caminhos dentro e fora de mim que é isso que de facto eu pretendo. Mover-me usando esta banda como uma forma de poder falar para que as pessoas oiçam o que tenho para dizer, partilho o que me ferve nas veias, tento passar da melhor forma possível o que os meus olhos vêem neste mundo em que vivemos. New Winds ao longo dos anos para mim tornou-se mais do que uma banda, tornou-se uma forma de pensar, uma forma onde tudo o que eu possa passar às pessoas uso essa arma que se chama New Winds, a qual através da música e de concertos tento passar uma mensagem de Libertação Humana, Animal e da Terra. Uma libertação de nós próprios, de uma R(E)volução Espiritual. Sem dúvida, sem qualquer margem mesmo de dúvida, é isto que me move. Não procuro glória ou caridade, pena ou egocentrismo, não procura fama ou ser aquele que é um exemplo, procuro apenas poder dizer o que sinto e fazê-lo através dos meus actos e das minhas palavras para com os outros.


Ouvido:Quais as vossas maiores influências musicais?

Bruno “Break” (Voz): Falando por mim, julgo que as bandas que mais me influenciaram em termos musicais foram os Ignite, mas outras também tiveram o seu contributo, bandas como X-Acto, Human Beans, Sight, Liberation, Time X, Shelter, Youth Of Today Boy Sets Fire, Propagandhi, etc., mas outras como U2, Sting, Cranberries são bandas que sei que me influenciaram para trazer algumas melodias para New Winds bem como me influenciaram nos assuntos, mais especificamente nas letras, que me levaram a trazer a necessidade de falar sobre eles numa fase mais antiga de New Winds. Acho que de uma forma de outra, muitas bandas influenciam as bandas, depende da esfera musical que cada pessoa abrange o seu gosto.


Ouvido: Em termos de agenda, digressões, concertos, espectáculos... O que têm feito ultimamente em Portugal?

Bruno “Break” (Voz): New Winds não toca muito por diferente motivos, desde poucos convites como devido à disponibilidade de podermos ir. Como temos vidas com certas características e estamos envolvidos também noutras bandas, nem sempre estamos todos disponíveis para tocar, o que torna as coisas por vezes um pouco complicadas nestes termos. Pessoalmente gostava de tocar mais, de poder ir a outros lugares em Portugal, de fazer um mini-digressão por várias cidades acompanhados de outras bandas e de poder tocar com bandas dessas cidades para as conhecer e para podermos conviver mais uns com os outros. Quem sabe se um dia isso não se torna realidade? Espero do fundo do coração que sim.


Ouvido: Participaram no Animal and Human Liberation Fest 3 no IPJ do Parque das Nações, no passado mês de Maio. Este projecto vai ao encontro do vosso espírito. Falem um pouco da iniciativa, participação, balanço do evento.

Bruno “Break” (Voz): Sempre apoiei essas iniciativas e gosto de ver que tanta gente se junta ali, uns por umas razões, outros por outras, mas todos juntos. Acho que deviam de existir mais iniciativas deste género apesar do trabalho que dá. Mas é mesmo pelo facto de existirem poucas pessoas a querem fazer coisas que estas coisas acontecem uma vez por ano e de facto é uma pena. Por outro lado, tive pena também que este ano o tempo fosse tão limitado por banda. Queria ter lido algumas coisas que tinham a ver com esta iniciativa, queria ter falado um pouco mais sobre a iniciativa em si e um pouco sobre sermos mais activos em campanhas de sensibilização e de um poder imenso que temos nas nossas mãos em podermos ajudar quem precisa. O balanço penso que foi positivo, compareceram muitas mais pessoas do que aquelas que estavam à espera e existiu de facto muitas pessoas que pegaram em informação sobre o evento, campanhas em curso, textos, situações que não nos são espelhadas pelos meios de comunicação social. É bom que estas iniciativas sejam mais frequentes porque às vezes o que falta mesmo é um pouco de motivação, de ver os outros a tomarem essas iniciativas eles mesmos para que depois outros participem. Se uma iniciativa destas existir para o ano e New Winds tocar nesse encontro, tratarei de arranjar alguma actividade para complementar um pouco a música, um colóquio, uma troca de ideias, a passagem de um vídeo ou ler alguns textos sobre determinado assunto. Faz falta essa consciência mais activa de troca de ideias, de falarmos, de não nos fecharmos, de não nos tornarmos mais frios, mas sim mais abertos a discussões, a debates, a sermos mais sensíveis. Se isto não acontece, como queremos que a realidade mude? Porque é que quando se trata de eliminar defeitos ou coisas que não estão bem, toda a gente quer começar pelos outros???


Ouvido: Actuações no estrangeiro? Que reacção obtiveram? Memórias mais marcantes.

Bruno “Break” (Voz): Tivemos algumas sim. Andámos porquase toda a Europa menos Escandinávia, fomos ao Brasil em Tour em Janeiro de 2005 e espero poder ir ainda a outros lugares. As reacções foram quase sempre boas uma vez que New Winds sempre se manteve leal em dar concertos que fossem um pouco diferente do habitual, falar de assuntos, comunicar o que nos vai no coração e as pessoas gostam quase sempre disso, porque infelizmente não é usual verem isso numa banda ou num concerto a que vão. O que mais me marcou foram os momentos bons, porque os maus a gente tem de os deitar fora. Só quero carregar no coração a alegria e não a mágoa. A forma como fomos recebidos no Brasil e também na Polónia foram esses momentos ideais para um coração como o meu, movido a sentimentos, muito choramingas. Foram de facto dias de glória, de amor, de felicidade brutal, felicidade a qual nunca a consegui exprimir em palavras. Só sei que a senti como nunca a tinha sentido e repetiria tudo de novo para voltar a sentir o que senti. Fomos de facto tratados como reis que não somos, fomos acarinhados por pessoas que simplesmente não nos conheciam de lado nenhum e isso é simplesmente impagável, não tem preço. Oxalá um dia eu possa de uma forma ou de outra retribuir tudo o que fizeram por mim em New Winds.


Ouvido: "Ganhámos experiência, amadurecemos, fortalecemos amizades, aprendemos como nunca."
O que mais vos marcou durante a Tour no Brasil?

Bruno “Break” (Voz): Como disse atrás, fomos tratados como reis que não somos, fomos acarinhados por pessoas que simplesmente não nos conheciam de lado nenhum e isso é simplesmente impagável, não tem preço. As pessoas, o carinho, o país em si, a comida, a humildade daquele povo, a forma como as pessoas te tratam no geral é uma coisa que só quem lá foi entende o que eu quero dizer. Aprendemos que as pessoas mais pobres são sempre aquelas que sempre te oferecem guarida, sempre aquelas que estão ao teu dispor para qualquer coisa que necessites e nunca esperam nada em troca. É uma coisa que não tem explicação, está-lhes no sangue. Não me lembro de todos os nomes das pessoas que conheci, mas lembro-me do seu carinho e do seu amor a quererem que nós apenas nos sentíssemos bem. É por todo este amor que nos demonstraram que fiquei tão marcado. É impossível esquecer-me do que lá vivi, para mim é simplesmente impossível não querer voltar, não desejar voltar, não necessitar de voltar. É impossível.


Ouvido: Como descrevem o panorama actual da música nacional?

Bruno “Break” (Voz): Penso que a música nacional está de facto cada vez melhor, as pessoas parecem quase profissionais a tocar, as bandas têm material bom e fazem um bom uso dele tecnicamente, estão à altura do material que têm. Só tenho pena que muita dessa música não tenha um carácter mais político-social, mais espiritual. Tenho pena que as bandas e as músicas que compõem sejam cada vez melhores mas depois parece que têm falta de carisma, é apenas isso, música, mais nada. Tenho pena que a maioria das pessoas não use essa música para falar um pouco mais sobre o que se passa à nossa volta, tenho que pena que não se compartilhe com os ouvintes, fãs, pessoas, o que se sente em relação a determinado assunto, seja ele a nível social ou a um nível mais pessoal. Oxalá a maioria das bandas que eu oiço ou vejo em concertos pudesse usar esse fenómeno que é a música para poder tocar no coração das pessoas para que elas consigam fazer da sua realidade uma realidade boa, para que consigam de facto não ter um mundo melhor, mas serem esse mesmo mundo melhor, não quererem TER mais, mas sim elas mesmas SEREM mais.


Ouvido: Que lançamentos mais vos marcaram nos últimos tempos?

Bruno “Break” (Voz): Poucos. Posso talvez dizer que Bridge To Solace marcou-me muito mas depois quando os vi ao vivo, fiquei desiludido, estava à espera de outra coisa, mais na vertente do que ouvi no CD, ideias, debate, reflexão. Deixaram muito a desejar. Outro álbum que me marcou muito também foi o de Dead Fish do Brasil. Brutal mesmo. Tive o prazer de conhecer o Rodrigo, o vocalista, num restaurante vegetariano em São Paulo mas ainda nem tinha ouvido o CD deles. São uma banda com ideias e música brutais, fiquei mesmo sem palavras para descrever o que senti quando ouvi e li as letras deles. Achei que não podia ser verdade, fez-me pensar em imensos assuntos, fez-me viajar pela minha cabeça questionando as minhas crenças e entendendo que raramente uma banda conjuga o tocar excelentemente bem com o facto de ter letras tão poderosas. Sem dúvida que este foi o Álbum que mais me marcou nos últimos tempos por que me marcou pelo lado musical mas também pelo lado ideológico. Sem dúvida, sem palavras. Aconselho vivamente as pessoas a adquirem o novo CD deles “Zero e Um”. Só por curiosidade, Dead Fish leva para um concerto no Brasil normalmente 5000 pessoas. É muito para uma banda alternativa com ideias como as que eles transmitem.


Ouvido: Planos futuros. Próximos álbuns, concertos...

Bruno “Break” (Voz): Oxalá soubesse. Às vezes sinto que não dará para fazer muito mais. Acho que já consegui fazer muito mais em New Winds do que aquilo que alguma vez sonhei e não sei mesmo qual o rumo da banda em termos futuros. Espero ainda poder ir tocar aos Estados Unidos e à Ásia e regressar também ao Brasil porque não dá para não querer voltar. Queria explorar bem as músicas deste último álbum, queria explorá-las em termos musicais tocando-as mas falando sobre também sobre os assuntos que elas focam. Não sei se dará para lançar mais alguma coisa, mas é como disse, oxalá soubesse. Se houver vontade e oportunidade em conjunto concerteza que isso acontecerá, mas vamos esperar para ver no que dá. Obrigado por me deixares exprimir desta forma em nome de New Winds e espero que as pessoas eventualmente procurem um pouco manterem-se informadas sobre o que se passa à sua volta e que este CD de New WInds as tenha feito pensar em alguns assuntos que eventualmente pudessem desconhecer. Este álbum é uma prova de que não temos todas as respostas. Ainda temos muitas perguntas.
Escrevam-nos para newindshq@yahoo.com seja para dizer o que for. A vossa opinião é importante.

Um abraço!


O Ouvido agradece mais uma vez. Um abraço amigo ao Bruno "Break" e tudo do melhor!


newinds.com

publicado por Neto às 9:02 PM

1 Comentários:

Anonymous Caio Zanuto disse...

O Bruno é meu irmão Português, o mundo está carente de seres humanos que não suportam o insuportável, e esse garoto é uma raridade. Continuem publicando os incomformados.

21:50  

Enviar um comentário

<< Início

Em audição - SETEMBRO

diapasão

Destaques 2006

ouvido

contactos

  • ouvido[at]netcabo.pt

timpano

Reviews Nacionais

  • Alison Bentley - Combo Nation Move
  • Bizarra Locomotiva - Ódio
  • Blind Charge - Demo 2004
  • Day of the Dead - Old Habits Die Harder
  • Dr. Zilch - A Little Taste of Hell Vol.1
  • For The Glory - Drown In Blood
  • More Than A Thousand - Trailers Are Always More Exciting Than Movies
  • One Hundred Steps - You´re a Lovely Victim of Emotional Chaos
  • Thanatoschizo - Turbulence
  • The Temple - Diesel Dog Sound
  • TwentyInchBurial - Heavy Metal Is The Law
  • TwentyInchBurial - How much will we laugh and smile?
  • Vários - LMNT03: Fire
  • X-Wife - Feeding the Machine

orelha

Entrevistas

  • Kubik
  • Forgotten Suns
  • Blind Charge
  • The Vicious Five
  • One Hundred Steps
  • New Winds
  • Pointing Finger
  • Blacksunrise

Barulhos Recentes

  • Anonymous Caio Zanuto // 21:50

ouvido externo

  • agenda de concertos
  • d:/moni1/
  • divergencias
  • iso 800
  • metal incandescente
  • mondo bizarre
  • obscura lusitania
  • zona punk

Memória Auditiva

  • One Hundred Steps - You´re a Lovely Victim of Emot...
  • Moonspell e Daemonia no Fantasporto
  • Apurados para o Braga Parque
  • Concerto Punk-Hardcore
  • For The Glory de volta ao mapa...
  • Trash Touring Machine
  • Motornoise + Dead Singer + Soda Kaustica
  • Wipeout
  • Kneeldown
  • Perigo: Alta Tensão em Amarante!

Powered by Blogger