Entrevista a Victor Afonso, a.k.a. Kubik
Em conversa com o Ouvido, o músico falou do seu mais recente trabalho “Metamorphosia”, do seu percurso e do panorama musical português.
"A música pode ter sentido, claro, mas pode também não ter sentido nenhum. É como a vida…"

Victor: Sou um tipo normal que, como disse o Público, “gosta de rupturas estéticas e dá a sopa às filhas a horas”. Além disso, gosto muito de me deixar surpreender a toda a hora com alguma da música que vou descobrindo, e sou alguém que procura intensamente estímulos artísticos sempre novos, inovadores e estimulantes – na música como no cinema ou na literatura. Tenho um percurso musical que começa em meados dos anos 80, que começou no rock alternativo e que passou pela improvisação, as vanguardas e resvalou para a electrónica.
Ouvido: Recentemente foi editado o álbum “Metamorphosia”, que tem sido bem recebido pela crítica tal como o anterior “Oblique Musique”. Descreve-nos este novo trabalho…
Victor: É um disco mais maduro. O “Oblique Musique” foi editado no final de 2001 e teve uma grande aceitação por parte da crítica especializada. Durante este tempo, não estive totalmente parado e fiz música para cinema, vídeo, teatro e artes plásticas. Mas tive de pensar que rumo dar ao projecto Kubik e que orientações musicais definir. Daí ter demorado algum tempo a ser concretizado. É um disco com mais elementos “orgânicos”, mais instrumentos reais, mais vocalizações e mais colaborações de outros músicos convidados. “Metamorphosia” é um trabalho conceptual à volta da ideia (já delineada no primeiro disco) de reciclagem sonora, de mutação e de fragmentação estética. Pop, rock, ambient, electro, easy-listening, world, jazz, prog, são conceitos que aboabordo no meu trabalho, num caldeirão caleidoscópico que sensibilizará os ouvidos menos “duros”.
Ouvido: Contas com várias participações neste novo álbum. Os convites surgiram antes das músicas feitas, ou depois de “analisares” o que tinhas feito, decidiste por esta ou aquela pessoa?
Victor: Os convites surgiram antes das músicas feitas. Os dois nomes mais conhecidos, Francisco Silva (do projecto Old Jerusalem) e o Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) gostaram muito do meu primeiro disco, tive a oportunidade de os conhecer a ambos pessoalmente. Lancei-lhes o desafio de participarem no meu disco, ao qual os dois responderam positivamente. Como é óbvio dei-lhes liberdade criativa total; gravaram as vozes e depois eu no meu estúdio misturei e manipulei as vozes com as partes instrumentais. Mas queria deixar claro que o disco não vive apenas das colaborações destes dois músicos mais conhecidos, há outros, menos mediáticos, que tiveram um grande contributo para o resultado final…
Ouvido: Ainda está no ar a possibilidade de ser editado pela Ipecac (Mike Patton)?
Victor: Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Mike Patton em Maio de 2004, quando este me convidou pessoalmente para fazer a primeira parte do grupo Fantômas na Aula Magna. O Mike conheceu o “Oblique Musique” através da minha editora Zounds e da sucursal Sabotage, que é uma distribuidora que distribui em Portugal os discos da Ipecac. Gostou muito e convidou-me a fazer a primeira parte do referido concerto e a editar, eventualmente, um próximo disco na sua editora. O Mike foi a primeira pessoa a quem dei a escutar o “Metamorphosia”, dado que enviei a maqueta para os EUA há alguns meses atrás. O Mike adorou o disco e só não foi editado pela Ipecac porque não havia espaço editorial para editar Kubik este ano, só para 2006. O Mike colocou a possibilidade de editar o disco para meados de 2006, mas como não queria esperar tanto tempo com o disco na gaveta, decidi editar pela Zounds. Mas quem sabe se haverá uma outra oportunidade de colaboração…
Victor: Sim, admito que assim seja. A minha sede de fruição estética não se limita à música: o cinema de autor, a criação audiovisual contemporânea (vídeo-arte, cinema digital, instalações…), a literatura e o teatro são fontes de conhecimento artístico e fontes de inspiração constantes. “Metamorphosia” tem várias referências ao cinema, que passam pelo universo do Hitchcock ao do Orson Welles. Interessa-me muito a vertente imagética das coisas, a
exploração visual do som, que decorre do meu interesse nas bandas sonoras para filmes e dos cartoons de animação. As artes de vanguarda – da literatura às artes plásticas – sempre exerceram um grande fascínio no meu imaginário: o surrealismo, o futurismo, o movimento Fluxus, a Beat Generation, o dadaísmo, a concept art, a electro-acústica, o cinema experimental, entre outras manifestações. Repare-se que o conceito dadaísta de “ready made” está muito presente no meu trabalho, no sentido em que retiro um elemento sonoro original e recontextualizo-o num meio totalmente diferente conferindo-lhe uma identidade artística distinta. Há, pois, todo um mundo fervilhante de sensações, de pulsares, de inspirações que me interessam como consumidor e como criador.Victor: De forma genérica, acabo por concordar com essa definição. Houve um crítico que me caracterizou de “alquimista dos sons” e creio que é uma definição acertada do meu trabalho. Apesar de tocar vários instrumentos, é com matéria sonora digital – os samples – que eu mais trabalho. Logo, estes podem ser considerados “ingredientes” com os quais trabalho, numa lógica de montagem, de reciclagem, de reconstrução estética. No fundo, congrego no meu computador todo um laboratório experimental de sons, os quais trabalho numa plataforma electrónica que me permite mil e uma soluções criativas possíveis.
Ouvido: Li que consideras a tua passagem pela Universidade como uma “desilusão”. Esta deu um rumo à tua carreira e à forma como vês a música, na medida que te fez ver aquilo que não querias ser/fazer? O que te move?
Victor: Referia-me à minha licenciatura em Educação Musical. De facto, senti uma certa desilusão pelo facto de não ter encontrado, durante o curso, os motivos de interesse que eu julgara poder encontrar. O que encontrei foi um ensino parado no tempo, que não ousava incutir nos alunos sentido crítico, que não ousava perscrutar o sentido estético dos fenómenos musicais e artísticos, que não abordava as correntes de pensamento criativo mais interessantes que aconteceram no século XX. Só para dar um exemplo: a cadeira de História da Música parava no início do Século XX, com Debussy e o Impressionismo. Ora, todas as correntes musicais e compositores que me interessavam estavam nos períodos históricos subsequentes! Gosto muito de alguns compositores clássicos, percebo a necessidade de compreender a linguagem musical académica (Harmonia, Composição…), mas nunca percebi a relutância intelectual de certos professores em não aderirem a conceitos estéticos diferentes ou a músicas experimentais. Por isso tive de praticar uma espécie de estudo autodidacta e partir à descoberta de Schoenberg, Marinetti, Russolo, John Cage, Vàrese, Pierre Henry, Albert Ayler, Cecil Taylor, John Coltrane, Philip Glass, Stockhausen, Xenakis, entre dezenas de outros exemplos. E ao desiludir-me com esse facto, acabou por desencadear em mim um incremento de curiosidade intelectual em ouvir coisas novas e criativas, fora das normas, inovadoras e avançadas na forma e no conteúdo.
Ouvido: Fontes de inspiração? Quando compões preferes isolar-te ou a inspiração advém de constantes audições?
Victor: Eu prezo a máxima que o Brian Eno lançou nos anos 80 quando afirmou: “a música mais interessante é representada por 20% de inspiração e 80% de regeneração”. Nada mais certo, quanto a mim. O conceito “tout court” de inspiração é hoje quase inócuo, vazio de sentido. Essa ideia de que um criador (seja escritor, músico ou artista plástico) se isola durante um ano para criar, qual monge asceta e misantropo, está ultrapassada. Pelo contrário, o criador abraça ainda mais o mundo à sua volta, lança tentáculos à globalização cultural, procurando estímulos nas coisas triviais da vida para criar a sua arte. A inspiração não é um facto consumado, não é algo estático, é antes um “work in progress” que está sempre em constante mutação, transformação, consoante a forma como o criador assimila, a toda a hora, esses estímulos do exterior (ou do interior). É assim comigo. Os estímulos podem vir de qualquer coisa, não só de fontes sonoras ou musicais. Essa ideia de regeneração do Brian Eno coaduna-se na perfeição com o que faço, dado que submeto as fontes sonoras a um processo de reconstrução, de “nova vida”, de metamorfose.
Ouvido: Um tema muito actual (por causa do recente Live Aid) é o do papel social da música. O notável trabalho que desenvolves na Mediateca permite fazer a ligação entre o teu trabalho musical e a comunidade. Acreditas que a música pode constituir um veículo para a mudança social? Achas que o interior do país está ainda limitado no que diz respeito ao acesso a novos “conhecimentos”?
Victor: Na tua pergunta estão implícitas três questões distintas: o papel social da música; o meu trabalho profissional com a comunidade; e o factor interioridade da cidade da Guarda. Muito sucintamente, direi apenas que acredito na função social da música como veículo de construção de uma consciência social (ou política, moral, estética…). A música não tem apenas a função de entretenimento, de evasão, que é basicamente a função da chamada música “maisntream” e comercial. A música tem uma determinante função educativa, social, artística e humana, no sentido em que ajuda ao homem desenvolver-se de forma mais completa. Mas sobre isto há dezenas de estudos e de livros que explicam esta vertente essencial da música. Quanto ao meu trabalho propriamente dito, é o de coordenar a Mediateca da Guarda, um espaço multicultural aberto a novas experiências no domínio da música, cinema, audiovisual, formação, pedagogia, etc. Nesse sentido, sinto que estou a criar uma forte ligação com a comunidade, a prestar um serviço público, digamos, educativo. Quanto à interioridade da Guarda, é algo que me aprece já ultrapassado, não só com as vias de comunicação físicas como virtuais. Sentia-se essa interioridade há 15 ou 20 anos. Agora não. Julgo até que é uma benesse viver numa cidade pacata e afasta dos grandes centros urbanos: permite-me um maior distanciamento dos fenómenos de moda, das pressões, da rotina stressante do dia-a-dia. Eu estou ligado ao mundo, através da sociedade da informação, global e tecnológica, logo não sinto esse suposto estigma da interioridade.
Ouvido: O teu trabalho utiliza muito das chamadas “novas tecnologias”. O que achas da partilha de música, de forma gratuita, na Internet?
Victor: Acho que é um sinal dos tempos irrefutável da sociedade da informação e da comunicação, global e virtual, em que vivemos. Há um factor extremamente positivo com a partilha gratuita de ficheiros de música na internet: o de divulgar, a nível planetário e de forma célere, a música de um dado artista. É algo impensável há apenas 10 anos atrás. Para o consumidor (e eu também o sou), é excelente que tal aconteça. Como criad
or, não me choca que a minha música circule livremente na net, porque é um meio de promoção ímpar. À minha editora é que não deve achar muita graça à ideia. O que me aborreceria era saber que alguém usurpasse, na íntegra, a minha música. No invés, acharia muita piada se algum músico samplasse um ou outro tema meu…Lembro que uma estatística recente dizia que quem compra CD são pessoas com mais de 30 anos, ou seja, aquelas que ainda viveram o apego e o culto do vinil, do desejo de posse material do objecto. As gerações mais jovens, os teenagers, preferem descarregar directamente da net os ficheiros de música, não se importando pela desmaterialização do suporte musical (coisa que me preocupa). Mas eu estou em crer que o CD não irá desaparecer tão cedo…
Ouvido: Li recentemente a seguinte frase: "Enquanto o audiófilo ouve sempre os mesmos discos em busca da reprodução perfeita, o melómano ouve discos diferentes em busca da interpretação perfeita..." Onde te situas?
Victor: Também li isso. Essa frase foi citada por um crítico de tecnologia áudio de um jornal diário, portanto, um audiófilo. Essa frase corresponde à verdade e identifico-me muito mais com a do melómano que está em busca permanente da interpretação perfeita. Irrita-me um bocado a mania dos audiófilos darem só atenção à parte eminentemente técnica da reprodução áudio, menosprezando o prazer da fruição musical e da descoberta estética. Conheço um ou dois audiófilos que são completamente obcecados pelas últimas novidades tecnológicas audiófilas mas que são uns totais ignorantes musicais, ouvindo sempre os mesmos discos dos Supertramp ou dos Queen nas aparelhagens e nas colunas ultrasofisticadas! Prefiro ouvir um disco estimulante numa aparelhagem rasca com um stereo manhoso do que ouvir os Supertramp num sistema Hi-Fi de não-sei-quantos milhares de euros e com colunas de som com não-sei-quantos canais!
Ouvido: No teu trabalho tudo parece em constante mutação…diferentes estilos, improviso versus composições…e o futuro?
Victor: O futuro não existe. Não aprendeste isso com o punk? Agora mais a sério: essa apreciação está correcta: mutação, diversidade de estilos musicais, fragmentação são conceitos que se podem aplicar à minha música. Quanto ao futuro, não sei se Kubik continuará a seguir esta linha ou se enveredará por fazer pop hits que entrem directos para o nº 1 da playlist da RFM!
Ouvido: Onde é que te podemos ver ao vivo num futuro próximo?
Victor: A partir de Setembro irei apresentar ao vivo o disco “Metamorphosia” em diversos locais de Lisboa e do Porto. Oportunamente haverá notícias.
Ouvido: Quais os lançamentos que te marcaram recentemente (nacionais e internacionais)? Deixa uma sugestão no Ouvido…
Victor: No plano nacional, o segundo disco do Old Jerusalem está muito bom. Assim como o de um projecto de música electrónica com grande valor: Sci-Fi Industries. Gostei muito do disco de estreia dos Factor Activo, pela Loop. Aliás, gosto de quase tudo o que sai da fornada da Loop, assim como de outras editoras nacionais como a Bor Land, a Thisco, a monocromática… Stealing Orchestra, Fat Freddy, Mécanosphère, Bypass, Bildmeister, Wraygunn, Loosers, Caveira, são outras bandas nacionais que gosto. A nível internacional, há sempre boas coisas a descobrir: Six Organs of Admittance, Animal Collective, KTU (com o grande Kimmo Pohjonen), Mike Ladd, Vitalic, Colleen, LCD Soundsystem, todos os projectos em que Mike Patton entra, entre muitos outros.
Ouvido: Três adjectivos para o panorama musical português…
Victor: Hummm… prefiro resumir tudo a um só adjectivo: estimulante.
Ouvido: Acrescenta algo que te apeteça…
Victor: O meu site está disponível em http://www.kubik.com.pt/ – contém todas as informações sobre o projecto Kubik.
O Ouvido agradece ao Victor toda a disponibilidade para esta (longa) entrevista! Um abraço!















0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Início